AULA 34. O espaço arquitectónico

O espaço como ferramenta do arquitecto (cria espaços). O espaço é constante, homogéneo, pois pode ser modificado para que haja diferentes compreensões desse mesmo espaço.


Espaço focal clássico
O olho é a ferramenta para compreender as formas e objectos arquitectónicos.
Os volumes têm uma forma determinada com a ajuda da nossa visão. A percepção é assim um instrumento que o homem tem para compreender o espaço arquitectónico. Então, a percepção arquitectónica é uma qualificação do espaço através da visão.
O objecto final de arquitectura não está no final, mas no elemento que forma o limite da massa, isto é, o objectivo final não está em compreender esta massa, mas sim no limite que define a forma, o “vazio permanente”, isto é, não é a massa, mas sim a pele.
Exemplo Caja General de Ahorros em Granada de Alberto Campos Baeza 2002
Compreendemos o volume e a forma através da visão, mas o que interessa na arquitectura é o vazio que está dentro, o olho apenas vê o limite que está vazio.
Assim, o espaço arquitectónico não é um elemento tangível, isto é, que possamos tocar, mas é um elemento que está sempre delimitado por um limite, uma pele. Quando percebemos o limite, vai fazer com que nos sintamos dentro do espaço arquitectónico, isto é, a forma como percebemos o limite, influencia o que sentimos quando estamos dentro do espaço arquitectónico.
Exemplo da Meditação de Rembrandt

A luz é uma qualidade do espaço arquitectónico que não pertence à arquitectura mas sim à vida e ao mundo, mas que é usada na arquitectura para capturar a ideia de limite. Assim, a luz é usada para compreender o limite deste espaço arquitectónico, é uma matéria contínua e em termos de material é volumoso, que podemos mover, isto é, não é só um material para arquitectura mas também é uma matéria concretamente contínua, com volume (luz como um “líquido viscoso” que podemos mover para criar efeitos na arquitectura). A luz é ainda quantificável, podendo medi-la em termos de densidade/intensidade, tornando-a assim qualificável.
Direcção da Luz
1.Luz Horizontal
É a luz que entre por um plano vertical. Durante muito tempo apenas se criavam planos verticais para a introdução de luz horizontal.
Assim, a luz horizontal é produzida pelos raios de sol que penetram através de perfurações no plano vertical.
2.Luz Diagonal

Exemplo da Catedral de Beauvais

Procura que a luz consiga entrar de uma parte mais elevada (arquitectura do movimento Gótico).
Assim, a luz diagonal resulta quando os raios de sol atravessam tanto o plano vertical como o plano horizontal.
3.Luz Vertical
É através do movimento moderno que se consegue a entrada de luz vertical (através dos materiais como o vidro, plástico). Apenas existe um momento da história mais antiga que contém a entrada de luz vertical (Panteão de Roma).
Assim, a luz vertical resulta da entrada de raios solares em aberturas feitas no plano horizontal.
Tipos de Luz (qualidade)
1.Luz Sólida
Luz que podemos ver, compreendida como um líquido (diferença de luz/sombra), isto é, podemos compreender o limite entre o que está em sombra daquilo que não está.
Exemplo Panteão de Roma 27 a.C.

Edifício feito para os deuses onde existe luz vertical. A luz qualifica este espaço arquitectónico.
“Se o novo presidente do município de Roma, para que não entrassem chuva nem frio no Panteão, decidisse tapar o óculo de quase nove metros de diâmetro que o coroa, muitas coisas aconteceriam… ou deixariam de acontecer. A sua construção exemplar não se alteraria. Nem a sua perfeita composição. Nem a sua função universal deixaria de ser possível. Nem o seu contexto, a Roma antiga, se daria conta (pelo menos na primeira noite). Apenas a mais maravilhosa armadilha jamais feita pelo homem à Luz do Sol, e na qual o astro-rei cai gozosamente todos e em cada um dos dias, teria sido eliminada. O Sol começaria a chorar e, com ele, a Arquitectura (pois os dois são mais do que simples amigos).”
in “A ideia construída” de Alberto C. Baeza
2.Luz Difusa
É uma luz difícil de captar. Dá claridade. E é ainda difícil compreender a diferença do que é luz e, aquilo que é sombra.
Exemplo da Capela Ronchamp de Le Corbusier 1954
«A chave é a luz, e a luz ilumina as formas (…)»
Le Corbusier
A luz que é a única matéria arquitectónica que consegue lutar contra a massa, contra a ideia de gravidade, ideia de limite na arquitectura. Contém uma abertura horizontal que dá a percepção de que o tecto está a flutuar.
Existe um pouco de luz sólida que só conseguem perceber o espaço. O controlo de luz modifica a compreensão do espaço.
Exemplos de edifícios que usam a luz como elemento principal
Exemplo do Mosteiro La Tourette de Le Corbusier 1957

Este exemplo de Le Corbusier é um projecto que usa a luz como elemento principal para compreender todo o projecto.
No projecto, a capela está definida pela utilização de luz no seu interior.
As aberturas modificam o edifício para que a luz resvale para o interior
Entre o plano horizontal e vertical o edifício contém uma abertura para a entrada de uma luz diagonal. Uso de clarabóias para entrar luz vertical.
“Se, no convento de La Tourette, algum frade dominicano novo tapasse as fendas e as aberturas, raras mas precisas, da capela-mor do convento em busca de maior concentração, muitas coisas aconteceriam também… ou deixariam de acontecer. A robustez da sua construção não se alteraria. A sua composição livre permaneceria incólume. As suas funções sublimes poderiam continuar, um pouco mais “concentradas”, talvez à luz das velas. Em seu redor nada se alteraria. Ou seria necessário muito tempo para que isso acontecesse. Apenas a inquietante quietude das pombas que, deixando de voar, pousariam sobre o edifício, acabaria por denunciar aos camponeses o sacrilégio ali consumado. O espaço, mais do que concentrado, tornar-se-ia tenebroso. E os frades comprovariam, assustados, que o canto gregoriano, luminoso, se negava a sair de suas gargantas. O mosteiro, e com ele a Arquitectura, teriam entrado na noite escura.”
in “A ideia construída” de Alberto C. Baeza
Exemplo da Catedral de Brasília de Óscar Niemeyer em 1960
Exemplo Box of Light and Shade em Cadiz de Alberto Campo Baeza 2001

Existe um controlo da luz para criação de efeitos no interior, isto é, existe uma tentativa de controlo sobre as entradas de luz em termos de qualidade e direcção para determinar efeitos no interior. Existe uma intenção no sentido em que a luz seja protagonista como material no interior, por isso a arquitectura é branca e abstracta.
Exemplo do Centro Cultural em Madrid de Alberto Campo Baeza
Ideia do edifício como um “queijo perfurado” pela luz. Assim, a luz define o factor tempo no seu interior, isto é, a luz está a mover-se por todo o espaço, daí que dá-se a noção do factor tempo (no interior só se dá conta do tempo devido à luz).
Exemplo Caja de Ahorros em Granada de Alberto Campo Baeza 2002
O edifício é uma caixa de luz.
Existe a criação do efeito de sombra para criar uma luz difusa no interior, frente aos planos horizontais com clarabóias para entrada de luz vertical.
Assim, a luz funciona como um factor tempo na arquitectura, porque está a mover-se.
Capela de S. Ignatius em Seatle de Steven Holl 1997
Conhecido como o projecto das “sete Lâmpadas”
Cada clarabóia define um momento religioso diferente.
É um projecto pensado em como a luz vai interferir no espaço.
Fenómenos no espaço arquitectónico (exemplo da Caja de Ahorros de Campo Baeza)
1.Apresentação

Estamos no interior do edifício e compreendemos o limite.
2.Representação

Ou então, podemos rascunhar o espaço e compreendê-lo através da representação ténue da arquitectura, para isso devemos controlar como vai ser o espaço no final (Geometria, desenho, maqueta).
Métodos de Representação (Vitrúvio)
1.Ortografia: volume – massa
Compreendemos o volume, a forma do objecto arquitectónico (perspectiva).
2.Iconografia: planta
É o modo de representação mais habitual que mostra as relações interiores entre os espaços, assim marca as conexões de diferentes elementos e de diferentes espaços de circulação.
3.Cenografia: secção – perspectiva
Representação de um corte com perspectiva. Mostra aspectos construtivos. Representação a duas dimensões de um espaço o três dimensões.
Tentativa de criar profundidade (desenhar o espaço interior de uma forma real).
Exemplo do Museu Romano em Merida de Rafael Moneo
Não podemos medir a percepção, mas existe uma conexão virtual entre o desenho e a percepção do espaço interior.
Através dos desenhos podemos perceber como vai ficar o projecto final. O desenho cria assim uma conexão virtual com o edifício já construído.
A arquitectura deve ter a capacidade de organizar o espaço para que seja facilmente dimensionável e controlável e o desenho já pode transmitir as sensações que gostaríamos que as pessoas vivessem. Procura de sensações que ainda não aconteceram (importância do controlo da perspectiva e do desenho).