A construção do tempo e do espaço
No espaço focal clássico, era um espaço onde existe um ponto de vista fixo e onde a luz era o material que ajuda a compreender o limite de um espaço.
Agora, o homem já não está parado, mas sim a mover-se, criando assim um espaço narrativo, onde é o tempo que dá a matéria arquitectónica e será o que possibilita a criação de novos espaços. Assim, o tempo, a dimensão vai acompanhar-nos nesta narrativa com princípio e fim.
Cubismo
É a primeira vanguarda que quebra esta perspectiva focal clássica.
Exemplos das obras “Cabeça” (Litografia) e “Cabeça” de Pablo Picasso 1945
O tempo descompõe a realidade (cabeça) através da orientação do olhar, isto é, descompõe a realidade clássica em termos de perspectiva pela fragmentação para depois propor um espaço novo, usando a técnica da colagem. Assim, o cubismo pega em várias perspectivas e cola-as, formando novas formas, isto é, o pintor cubista, começa a mover-se em redor da cabeça copiando partes desta.
Já não interessa qual a janela por onde vemos uma nova realidade, mas das relações entre fundo e figura, isto é, a pintura já não é uma janela mas uma relação compositiva dos elementos do quadro.
Exemplo “Suprematist composition: Blue rectangle over purple beam” de Malevich, K. 1916
Compreendemos as figuras em movimento a três dimensões.
O movimento já não é a fragmentação do olhar, mas sim a narração (tempo) que existe com os elementos do quadro.
Exemplo “Suprematist Composition: White on White” de Malevich, K. 1918
Exemplo do filme “El acorazado Potemkin” dirigido por Sergei M. Eisenstein 1925
O cinema também usa estas fragmentações. Constrói um espaço novo, que está por trás do ecrã do cinema e este espaço também serve para que o cinema seja construído.
Assim, pode dizer-se que quem percebe o mecanismo do cinema, percebe o mecanismo de arquitectura.
Com um obstáculo criamos um novo espaço, isto é, é através da câmara que é criado um novo espaço. Existindo uma multiplicidade de espaços, onde há diferentes espaços (o espaço que está a acontecer e o espaço que está a acontecer para lá da câmara – obstáculo). Assim, existem espaços que não se vêem, mas que se compreende estarem lá.
Cada fotograma está a descompor uma cena de diferentes pontos de vista e em diferentes momentos, mas compreendem a acção narrativa que se passa noutro lugar.
Pode dizer-se que existe uma narração através desse espaço.
O Espaço Narrativo
O tempo é importante para construir este espaço arquitectónico. Assim, o tempo na nossa visão é importante para compreender a arquitectura.
Exemplo da Villa Savoye de Le Corbusier 1928
Está feita para que haja um percurso dentro da casa, para só a percebermos depois de nos movimentarmos e a virmos de vários pontos de vista.
Existe uma percepção do olhar, que não está fixo num ponto (se estivermos parados dentro da Villa Savoye, existe um espaço focal clássico), frente a uma sucessão de sensações que acontecem segundo esta narração criando um novo espaço.
Então, os dois espaços (focal clássico/narrativo) estão juntos no mesmo projecto. Estes estão sempre juntos, mas actuam de modo diferente.
Assim, este espaço está criado não por uma percepção estável, mas por uma sucessão de sensações. É isto que constrói o espaço. Evitando um ponto de vista único e estável. Tem o propósito de criar uma sensação real. Não é um espaço virtual nem de projecção, mas sim um espaço real em que nos estamos a mover.
O percurso Arquitectónico
O percurso já pode estar previsto na concepção do espaço arquitectónico. Percurso que nos dá a ideia de chegar a algum lado.
Exemplo da Acrópoles de Atenas (desenho de Le Corbusier na visita à Grécia)
Existe uma criação de emoções.
O percurso é formado por uma sinfonia perspectiva de imagens, isto é, formado por um conjunto de imagens feito através do movimento e do percurso.
Assim, a boa arquitectura é caminhada/percorrida e há só um percurso desde fora e desde dentro. O percurso deve estar no controlo da arquitectura para criar sensações.
O tempo como categoria arquitectónica (ideia de movimento). Pois, o controlo do movimento já está na essência do objecto arquitectónico.
Exemplo da Pirâmide de Djozer em Sakkara 2778-23 a.C.
Complexo funerário, fechado com uma muralha e tem a pirâmide no centro como fim de percurso sequencial, tal como na Grécia, onde o templo também é o fim do percurso. Apenas existe uma única entrada (por onde é feito o percurso), porque só existe um único acesso entre o espaço dos vivos e dos mortos.
O percurso está condicionado à sequência de emoções que criamos com o nosso movimento. Percurso segundo um eixo de simetria.
Edifício caracterizado pela ortogonalidade, carácter fechado, divisão muito estrita entre o espaço interior/exterior (mundo dos mortos/vivos).
Exemplo das Pirâmides de Gizé 2723-2584 a.C. (Photo from Google Earth)
Existe uma sequência de construções, de emoções, desde o percurso do morto pelo Rio Nilo à chegada aos templos e levados por um corredor até à pirâmide.
A pirâmide é assim o fim da sequência de percepções.
Estes espaços apenas têm sentido se passar um percurso por eles. Assim, estes espaços não estão feitos para ser funcionais mas sim para ter percursos, essa é a sua função.
O percurso será, o morto é preparado no rio, embalsamado e depois passa pelos percursos (rituais funerários) e é enterrado.
Exemplo do Templo deir el Bahari em Hatshepsut 2723-2584 a.C.
O percurso para chegar ao fim da tumba é o elemento principal da construção.
Existe um eixo de simetria que é ao mesmo tempo, o eixo de movimento para chegar ao templo. Existe ainda uma ideia de ascensão até chegar à tumba.
Exemplo “Vers Une Architecture” de Le Corbusier”
Das viagens que realizou à Grécia e ao Egipto, Le Corbusier tenta compreender a essência formal das construções, os mecanismos essenciais das coisas. Para isso, estuda as regras físicas das construções e diz que confunde uma pirâmide com uma “montanha de lixo”, pois têm as mesmas regras físicas.
Assim, não existe uma razão humana para as formas das pirâmides, mas regras físicas que podem causar emoções arquitectónicas.
Regras físicas para causar emoções (exemplo do Mosteiro de La Tourette de Le Corbusier 1953-60)
1.Superfície
É aquilo que fecha o volume, que fecha o espaço, sendo um elemento essencial para a arquitectura.
2.Volume
Possibilita jogar com o cheio e o vazio do próprio edifício.
3.Planta
A planta é o controlo de todas as regras físicas em termos de percursos perceptivos, como liga as diferentes funções, isto é, compreensão de como vamos mover-nos por este edifício, qual vai ver o nosso percurso.
Le Modulor de Le Corbusier 1945
A técnica seria o controlo da sua “máquina de habitar”, isto é, o apoio para o controlo da casa de habitar.
A casa devia ser feita como uma máquina (carro, transatlântico, avião). Vai essencializar a arquitectura.
Elementos usados para o controlo das partes de sua máquina. As formas arquitectónicas conseguem estabelecer entre elas um diálogo contínuo que tem como consequência a sensação.
Existe assim uma procura das regras físicas que possam organizar estas formas e estuda os seus coeficientes.
Assim, a arquitectura é uma máquina estática e o elemento que se move é o homem e é necessário o movimento deste elemento (homem). Todos os elementos da máquina estão feitos para controlar o movimento, para isso, Le Corbusier usa as regras físicas.
Exemplo da Villa La Roche-Jeanneret de Le Corbusier 1923
Le Corbusier não gosta de usar o eixo de simetria dos elementos compositivos juntamente com o eixo de movimento do homem. Este eixo está assim controlado de acordo com que o eixo de movimento do homem não esteja coincidente com o eixo de simetria, criando assim uma antimetria (assimetria) perceptiva.
Pois, o homem tem olhos e estes não podem estar tapados pela simetria dos elementos compositivos. Assim, Le Corbusier usa a simetria no volume de percepção mas que não está no mesmo eixo de simetria do percurso.
Ideia de contorno das formas geométricas para criar mais movimento à nossa percepção.
Existe um pilote que orienta no percurso do homem (ideia de eleição entre esquerda e/ou direita – ideia de controlo), e que fica na mesma linha do eixo de simetria do volume menor, mas que não está no eixo de simetria do percurso.
Exemplo da Villa Stein de Le Corbusier 1927
Contém duas fachadas distintas uma da outra. O acesso à casa é sempre feito com carro (já está pensada para o carro). Estabelece uma percepção diferente em relação ao eixo de percurso e ao eixo de simetria.
Existe uma hierarquia entre o acesso pedonal e o acesso de veículos.
Contém duas entradas, mas existe uma hierarquia dos acessos, pois uma entrada cria um momento de percepção maior pois possui uma pala.
A fachada entra em contacto com o solo, não está elevada sobre pilotes dando assim uma maior noção de parada.
Formas curvas, convexas, côncavas para fazer parar ou controlar o percurso. Tal como a existência de pilotes em forma ovóide para dar mais rapidez na orientação do percurso.
Exemplo da Villa Savoye de Le Corbusier 1928
Neste projecto estão inseridos os ensinamentos de Le Corbusier. Está feita também para o acesso de automóveis. Assim é, que o carro é o elemento principal de chegada a casa.
Simetria compositiva da casa diferente ao eixo do acesso para a casa.
Existe um pilar central que cria um eixo de simetria.
No interior da casa, Le Corbusier quer que encontremos um percurso interior. Existe numa fase, duas escolhas de percurso, pois um pilote quadrado vai estar em diálogo com a curvatura da escada.
Existem pavimentos em diagonal, isto é, espaços de percurso (espaço narrativo), dinâmico. Noção de quando o pavimento é ortogonal dá ideia de parado. Estes pavimentos diagonais querem dar ainda a sensação de movimento de percurso, com um fim controlado que é o topo.
Existe um lugar fechado (como nos templos egípcios), mas neste caso aberto para voltar o homem para o exterior, é um marco do interior para o exterior.
Assim, o marco voltado para a natureza é o fim do percurso estrito.
Exemplo do Projecto “Museu do Conhecimento Ilimitado” de Le Corbusier 1939
Ideia de que o percurso já está na própria ideia do projecto. É uma ideia de um percurso para chegar a um fim.
Percurso centrífugo, feito do interior para o exterior. Funciona quase como que uma carapaça de um caracol. O edifício está suspenso sob pilares.
Uso da geometria em conjugação com a percepção de sensações.
Exemplo do Palácio de Congressos em Estrasburgo de Le Corbusier 1964
O projecto é como que um sistema digestivo. Onde o “bolo alimentar” entra para esse sistema digestivo e começa um percurso muito controlado para um fim completamente diferente do início.
Existe uma rampa superior que comunica como se fosse o intestino grosso.
O fim do percurso é realizado através de um elevador.
Exemplo Kunsthal de Rem Koolhas 1987-92
Já no logótipo do edifício existia a ideia de movimento, como se fosse uma máquina de habitar.
O edifício encontra-se situado entre a cidade antiga e o cais de Roterdão. Está num ponto que estabelece uma ligação entre a cidade antiga e a cidade nova. Ligação feita por uma rampa que quebra o edifício em duas metades.
Existe uma comparação das fachadas diferentes porque responde a cada realidade para onde as fachadas estão viradas. Assim, cada parte responde ao que está a acontecer no exterior.
Uma melhor observação ao edifício, repara-se que está dividido em quatro partes por dois eixos. Um é a rampa que faz a ligação dos dois lugares (cidade nova/cidade antiga) e o outro eixo é uma abertura por onde passa uma estrada por baixo do próprio edifício.
Existe assim, uma procura de uma sucessão de emoções por todo o edifício. Sendo as rampas que são levadas ao exterior criando uma ligação maior com o exterior, ou as árvores artificiais que “trazem” o jardim para o interior do edifício.